O debate realizado pela PUC TV na noite deste domingo (30/8) revelou parte das estratégias dos candidatos ao Governo de Goiás. Em pouco mais de duas horas, Daniel Vilela (MDB), Luis César Bueno (PT), Marconi Perillo (PSDB) e Wilder Morais (PL) tiveram a oportunidade de apresentar propostas, confrontar adversários e mostrar ao eleitor como pretendem conduzir a disputa nas próximas semanas.

Entre os participantes, o comportamento de Marconi Perillo chamou a atenção. Mesmo com a experiência acumulada em sucessivas disputas eleitorais e quatro mandatos como governador, o tucano adotou um tom mais exaltado em diferentes momentos. Teve dificuldades para administrar o tempo das respostas, se atrapalhou ao buscar as câmeras e, em um ato falho, chegou a pedir “direito de corrupção”, quando pretendia solicitar direito de resposta.

A postura ficou ainda mais evidente no confronto direto com Daniel Vilela. Marconi elevou o tom e concentrou sua participação em acusações contra o adversário, a quem chamou de “leviano” e tentou atribuir ao emedebista possível envolvimento em supostos escândalos.

A estratégia, porém, abriu espaço para que Daniel deslocasse o confronto para o histórico do próprio ex-governador. “Eu nunca respondi a nenhum processo de corrupção, ao contrário do senhor, que é réu por corrupção”, rebateu Daniel. Em seguida, o governador questionou Marconi sobre os quase R$ 15 milhões recebidos do Banco Master e cobrou explicações sobre os serviços que teriam justificado o pagamento. “O que fez para o Banco Master para receber R$ 15 milhões? Qual foi o trabalho? Consultoria em qual especialidade?”, perguntou.

A reação de Marconi foi insistir nas acusações contra Daniel. O tucano afirmou que o adversário teria conseguido se livrar de investigações por ter “poder à época” e voltou a citar episódios de quando Daniel presidia a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. A resposta permitiu ao emedebista explorar uma contradição no próprio argumento do ex-governador. “Candidato, você tem que decidir se eu sou fraco ou poderoso. Primeiro me chama de fraco, depois diz que sou poderoso ao ponto de não me envolver em nenhuma denúncia”, ironizou Daniel.

Daniel ainda questionou se Marconi estaria colocando sob suspeita a atuação do Ministério Público e do Poder Judiciário ao sustentar que o adversário teria poder para impedir uma denúncia. “Nós temos o Poder Judiciário em Goiás e no Brasil, temos o Ministério Público, e eles nunca ofereceram denúncia contra mim. Eles estão errados? Eu tenho tanta força assim para impedi-los?”, afirmou.

O contraste de postura também passou a fazer parte do próprio embate. Enquanto Marconi insistia nas acusações, Daniel procurou apresentar a si mesmo como o candidato interessado em reduzir a temperatura do confronto. “Não estou aqui para ofender ou atacar. Estou aqui para defender ideias, fazer um debate de alto nível, e esperava isso de você”, disse. Em outro momento, acrescentou: “Aproveite esta oportunidade: vamos debater ideias e ajudar os goianos a fazer a melhor escolha.”

Falta de estratégia?
O episódio acabou expondo um risco para a estratégia de Marconi nesta campanha. Ao optar pelo confronto pessoal, o ex-governador abriu espaço para que adversários trouxessem ao centro do debate episódios e investigações associados à sua trajetória política. Foi justamente depois de Daniel mencionar que Marconi responde a processo por corrupção e cobrar explicações sobre o Banco Master que o confronto ganhou seus momentos mais tensos.

Para um político que busca retornar ao Palácio das Esmeraldas após quatro mandatos como governador, o desafio não é apenas apresentar críticas à atual gestão, mas convencer o eleitor de que representa uma alternativa para o futuro. No debate da PUC TV, porém, Marconi pareceu mais mobilizado pelas acusações e pelo enfrentamento com Daniel do que pela construção dessa mensagem. E, ao transformar o passado em arma contra o adversário, acabou permitindo que o seu próprio passado também se tornasse protagonista do debate.