O senador Vanderlan Cardoso tantas fez que a hora da verdade acabou chegando, parodiando a composição de Vinicius de Moraes e Toquinho, Regra Três. Para atender aos seus interesses pessoais e familiares, Vanderlan é o político em atividade em Goiás que mais mudou de partido, mais de 10. Aproximou-se e se afastou de praticamente todos os grandes líderes da política estadual, de Iris Rezende a Ronaldo Caiado, passando por Marconi Perillo. Caiado, o último, a propósito, não foi vítima de uma deslealdade qualquer: em 2020, o governador, ainda no seu 1º mandato, apoiou decisivamente Vanderlan para prefeito de Goiânia (ele perdeu para Maguito Vilela no 2º turno por 30 mil votos), mas, apenas 2 anos depois, viu Vanderlan fugir da reciprocidade natural e se recusar a subir no palanque da sua reeleição, preferindo se engajar com o estranho no ninho Major Vitor Hugo. Oooops… o senador é acusado também de ludibriar o ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem jurou fidelidade e logo deixou de lado para votar a favor do governo Lula em todas as ocasiões (premiado com cargos no governo federal). Jair, diante de muitos interlocutores, o chamou na época de “traidor” (por votar em Rodrigo Pacheco e não no bolsonarista Rogério Marinho para a presidência do Senado).
Aristóteles, o filósofo grego pai da civilização ocidental, acreditava em uma justiça corretiva da história, capaz de reparar danos quando uma parte ganha indevidamente às custas de outra. Seria até educativo, ao ajudar a consertar o caráter de alguém corrompido. Esse conceito serve para Vanderlan? Ele, provavelmente, nunca ouviu falar em Aristóteles. Pois é: hoje, Vanderlan está se transformando em um exemplo da visão aristotélica, pois o castigo chegou através da evolução dos fatos. A inconstância congênita colaborou com a acachapante derrota dupla de 2024, quando Vanderlan fracassou redondamente na campanha para prefeito de Goiânia (ficou em 5º lugar com uma mixaria de 34 mil votos, enquanto sua mulher Izaura Cardoso foi derrotada em Senador Canedo, classificando-se em 3º lugar, com 15 mil votos ou 50% do número obtido pelo vencedor Fernando Pellozo). E tudo indica que não parou aí.
Senador eleito acidentalmente em 2018, na famosa primeira eleição em que Marconi Perillo escorregou para o abismo e arrastou junto Lúcia Vânia, que todas as previsões davam como eleitos, Vanderlan agora descobriu uma verdade dos tempos modernos: 8 anos passam depressa. O mandato senatorial, cumprido em brancas nuvens, está se esgotando sem que uma luz no fim do túnel apareça – a chance da reeleição. Mais sozinho do que nunca, Vanderlan esperava contar com o poder de fogo do partido que preside estadualmente, o PSD. Não deu certo. Caiado filiou-se à legenda comandada por Gilberto Kassab para se enfileirar como postulante a presidente da República junto com Ratinho Jr., do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. Que o melhor consiga a candidatura, é o acordo. Para Vanderlan, em Goiás, não sobrou nada, a não ser… espernear.
Para piorar, como todo milionário diletante, ele curtia o lado bom da vida nas praias baianas quando a virada de mesa aconteceu no PSD, na casa de Kassab em São Paulo. Não ficou sabendo de nada. Só recebeu um telefonema formal do presidente nacional. Pasmo, não soube nem reagir. Superado o susto, inventou que tem espaço assegurado para se candidatar novamente ao Senado, conforme teria ouvido de Kassab. Conversa fiada. Kassab, na verdade, mandou Vanderlan procurar Caiado e se acertar. Só que Caiado já programou a 2ª vaga senatorial na chapa governista para Gustavo Gayer, ao lado de Gracinha Caiado. E esse é um acerto matador, ou seja, praticamente define o que as urnas vão proclamar após abertas em outubro vindouro: Daniel Vilela governador e Gracinha e Gayer senadores.