O professor e economista Einstein Paniago analisou os planos de governo apresentados pelos candidatos ao Governo de Goiás nos últimos 16 anos e identificou um padrão de omissões sobre a realidade fiscal que pode limitar o cumprimento das promessas eleitorais feitas pelos candidatos nestas eleições. Em 33 dos 34 documentos registrados na Justiça Eleitoral entre 2010 e 2026, Paniago encontrou poucas ou nenhuma referência a temas como dívida pública, previdência, limite de gastos, receitas e capacidade financeira do Estado, um fenômeno que ele define como “silêncio fiscal”.

O levantamento integra o projeto “O Contrato Opaco”, desenvolvido pela Fundação João Mangabeira em Goiás, e reúne 1.303 páginas referentes a cinco pleitos. A pesquisa submeteu os documentos a uma auditoria de 20 institutos relacionados ao direito financeiro e ao planejamento público. Entre os principais achados, Paniago destaca a ausência de referências a mecanismos fundamentais para compreender a situação das contas estaduais. “A regra de ouro, o limite de despesa com pessoal, o déficit previdenciário, a maior despesa em trajetória autônoma do Estado, o Fundo de Participação dos Estados, o Fundeb e o programa federativo que reestruturou a dívida estadual por trinta anos têm zero ocorrências em dezesseis anos de planos”, afirma.

Para Paniago, a ausência dessas informações ganha ainda mais relevância diante das mudanças que deverão afetar as receitas estaduais durante o próximo mandato. Segundo ele, o cenário fiscal que será enfrentado pelo próximo governador não aparece de forma proporcional nos documentos eleitorais. “O silêncio recai exatamente sobre a porção da realidade fiscal que definirá o mandato 2027–2030, cerca de 39,6% da receita estadual de 2026 apoia-se, direta ou indiretamente, em base tributária em extinção pela reforma do consumo, e a peça oficial de planejamento já aprovada para 2027 projeta resultado primário negativo”, evidencia.

Na avaliação do professor e economista, a questão não se resume à ausência de números. O problema, segundo ele, está na falta de informações que permitam ao eleitor compreender de onde virão os recursos e quais limites financeiros podem interferir na execução das propostas. Paniago afirma ainda que o padrão identificado não está concentrado em uma eleição, candidato ou grupo político específico. As lacunas se repetem ao longo dos 16 anos analisados. “O silêncio fiscal não é acidente de redação, mas é propriedade estrutural do gênero, estável entre pleitos, transversal aos campos e resistente ao agravamento público da restrição silenciada”, destaca.

Transparência para além de promessas eleitorais

Na avaliação de Paniago, a transparência dos programas de governo está diretamente relacionada à qualidade da escolha do eleitor. Para ele, a liberdade política depende também do acesso a informações que permitam compreender e comparar os diferentes projetos apresentados durante a campanha. “O cidadão pode votar livremente, mas sua liberdade política não se esgota na existência da urna. Ela depende de informação compreensível, comparável e precisa”, alerta.

Ele ressalta que cobrar maior clareza não significa censurar propostas ou impedir que candidatos apresentem projetos ambiciosos. “A política tem direito ao projeto e ao conflito, mas o eleitor tem direito à inteligibilidade”, comentou. Para o especialista, informar custos, fontes de recursos, prazos e mecanismos de avaliação não reduz a capacidade de formulação de políticas públicas. “A transparência não diminui a imaginação governamental, ela impede apenas que a ambiguidade seja usada como escudo depois da eleição”, reforça.

Paniago resume o problema na distância entre aquilo que os candidatos prometem e as condições fiscais necessárias para transformar essas promessas em ações concretas. “O contrato eleitoral goiano é opaco não somente porque promete sem medida e sem preço, mas porque suprime do seu universo discursivo a própria moldura que decidirá o destino de tudo o que promete.” Para ele, o levantamento pode servir como instrumento de fiscalização eleitoral e acompanhamento dos futuros governos. “A ciência pode medir esse silêncio, mas rompê-lo é decisão que pertence ao legislador, aos competidores e ao eleitor”, define.

Perfil biográfico

Einsten Paniago tem trajetória marcada pela atuação em cargos estratégicos na administração pública e em entidades de classe, com experiência em áreas como governança, fiscalização, auditoria, compliance e finanças públicas. Também atua como contador, administrador público e professor universitário, desenvolvendo atividades voltadas à formação técnica e à qualificação da gestão pública.

Doutor em Direito pelo UniCEUB, mestre pela PUC Goiás e MBA pela USP, ele atualmente exerce o cargo de conselheiro federal de Contabilidade (mandato 2026–2029). Com foco no desenvolvimento econômico e na modernização do Estado, defende o fortalecimento da cidadania fiscal e da eficiência na gestão pública como caminhos para melhores resultados sociais e econômicos.